domingo, 5 de outubro de 2008

A Mulher Selvagem....


A Deusa..
O que é a Mulher Selvagem?
Ela carrega consigo os elementos para a cura; traz tudo o que a mulher precisa ser e saber.
Ela dispõe do remédio para todos os males. Ela carrega histórias e sonhos, palavras e canções, signos e símbolos. Ela é tanto o veículo quanto o destino.
Aproximar-se da natureza instintiva implica em delimitar territórios, encontrar nossa matilha, ocupar nosso corpo com segurança e orgulho, independentemente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria, estar consciente, alerta, recorrer aos poderes da intuição e do pressentimento inato ás mulheres, adequar-se aos próprios ciclos, descobrir aquilo a que pertencemos, despertar com dignidade e manter o máximo de consciência possível.

Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora.
É a intuição, a vidência, é a que escuta com atenção e tem o coração leal.
Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilingues: fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia.
Ela sussurra em sonhos noturnos;
ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas.
Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontrá-la, libertá-la e amá-la.

Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações.
Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo.
Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer.
Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseirada raposa.
Os pássaros que nos contam segredos pertencem à ela.
Ela é a voz que diz "por aqui, por aqui!".

Ela é a que se enfurece diante da injustiça.
Ela é a que gira como uma roda enorme. É a criadora dos ciclos.
É à procura dela que saimos de casa....É à procura dela que voltamos para casa.
Ela é a raiz estrumada de todas as mulheres.
Ela é tudo que nos mantém vivas quando achamos que chegamos ao fim.
Ela é a geradora de acordos e idéias pequenas e incipientes.
Ela é a mente que nos concebe; nós somos seus pensamentos....

Onde Ela está presente? Onde se pode senti-la? Onde se pode encontrá-la?
Ela caminha pelos desertos, bosques, oceanos, cidades, nos subúrbios e nos castelos.
Ela vive entre rainhas, entre camponesas, na sala de reuniões, na fábrica, no presídio, na montanha da solidão.
Ela vive no gueto, na universidade e nas ruas.
Ela deixa pegadas para que possamos medir nosso tamanho.
Ela deixa pegadas onde quer que haja uma única mulher que seja solo fértil.

Onde vive a Mulher Selvagem?
No fundo do poço, nas nascentes, no éter do início dos tempos.
Ela está na lágrima e no oceano. Está no câmbio das árvores , que zune à medida que cresce.
Ela vem do futuro e do início dos tempos. Vive no passado e é evocada por nós.
Vive no presente e tem um lugar à nossa mesa, fica atrás de nós numa fila e segue à nossa frente quando dirigimos na estrada.
Ela vive no futuro....e volta no tempo para nos encontrar agora.
Ela vive no verde que surge através da neve; nos caules farfalhantes do milho seco do outono;
Ali onde os mortos vêm ser beijados e para onde os vivos dirigem suas preces.
Ela vive no lugar onde é criada a linguagem. Ela vive da poesia, da percussão e do canto.
Vive de semínimas e apojaturas, numa cantata, numa sextina e nos blues.
Ela é o momento imediatamente anterior àquele em que somos tomadas pela inspiração.
Ela vive num local distante que abre caminho até o nosso mundo.

Ela é a Senhora de Muitos Nomes....é Aquela que Sabe...La Loba...é o Rio Abajo Rio....A Luz do Abismo...Aquela dos Bosques....A Mulher Aranha que tece o destino dos humanos e dos animais...das plantas e das rochas. Ela é o Ser da Névoa....A Força Espiritual que gera toda luz, toda conciência.
Ela é aquilo que É. E é um ser inteiro.

[@]Trecho retirado de Mulheres que Correm com os Lobos
Desenho de Amy Sol